Quando Saramago exigia "violência revolucionária"

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Foi como "jornalista revolucionário" que José Saramago se apresentou aos leitores do Diário de Notícias pouco após assumir funções de director adjunto do jornal, em Abril de 1975. E foi fiel a esta legenda que se manteve em funções durante sete meses, fazendo aqui publicar alguns dos mais incendiários textos que vieram a lume no "Verão Quente" de há 30 anos. Textos que culminaram com um apelo à insurreição militar em nome da defesa do socialismo. Ao alto da primeira página do jornal e numa data emblemática 24 de Novembro de 1975. Nessa noite, de facto, os militares "revolucionários" saíram dos quartéis. Mas, 24 horas depois, dissipava-se o sonho do futuro Nobel da Literatura: a ala "inconsequente" das Forças Armadas", aliada aos "partidos da burguesia", levou a melhor. O socialismo de matriz soviética não vingou em Portugal.

nas mãos do povo. Ninguém o pode acusar de falta de clareza. Ao tomar posse como director adjunto, a 9 de Abril, o escritor não deixou lugar a dúvidas "O DN vai ser o instrumento, nas mãos do povo português, para a construção do socialismo." Saramago, então com 52 anos, colaborara na revista Seara Nova e dirigira o suplemento literário do Diário de Lisboa, jornal de que também foi editorialista no biénio 1972/73. Já publicara alguns livros - Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria, A Bagagem do Viajante -, mas o essencial da sua obra ainda estava por escrever.

A nacionalização do DN, na sequência do 11 de Março de 1975, trouxe uma nova administração a este matutino, composta pelo coronel Marcelino Marques, o arquitecto Francisco Solano de Almeida e o crítico Correia da Fonseca. Luís de Barros, (ex-jornalista do Expresso e hoje editor-geral do Diário Económico) foi então designado director, tendo Saramago como adjunto.

Na prática, as posições invertiam-se os textos que marcavam a posição editorial do jornal eram os do futuro autor de Levantado do Chão. Sempre na primeira página, sob o título genérico "Apontamentos". Entre Abril e Novembro, foram publicados 95 destes textos, que funcionavam como verdadeiros editoriais do DN.

Eram textos onde já se detectava o estilo inconfundível que o celebrizou como prosador, repletos de juízos morais sobre as figuras públicas. Alternando críticas demolidoras a Mário Soares, Freitas do Amaral e Melo Antunes com os mais rasgados elogios a "revolucionários consequentes", como o primeiro-ministro Vasco Gonçalves.

Eram também textos que usavam e abusavam da terminologia bélica, ao jeito da vulgata leninista. Termos como "inimigos", "traição" e "rendição" surgem com muita frequência nestes "apontamentos", que funcionaram como imagem de marca desse DN.

"Não tenhamos ilusões é mesmo de guerra que se trata", escrevia na edição de 1 de Agosto, retratando a situação da época.

sem assinatura. Os "apontamentos" não eram assinados - talvez para acentuar o estilo "colectivista" do jornal, então muito em voga. Por uma só vez a assinatura de José Saramago - junto com a de Luís de Barros - surge nas páginas do DN num texto intitulado "Uma Direcção Nova" e publicado a 11 de Abril. "O DN é importante de mais para que os seus trabalhadores aceitem vê-lo transformar-se em feudo de alguém. Esta Casa precisa de todos e será obra de todos", asseguram os novos responsáveis. Contrariando estas palavras, 22 jornalistas serão despedidos a 27 de Agosto por delito de opinião. "Informação revolucionária não se faz com jornalistas contra-revolucionários. Por isso, os que o eram foram afastados", explicará o DN, a 4 de Setembro, em prosa não assinada (presumivelmente também de Saramago).

Segundo o novo estatuto editorial, divulgado a 26 de Junho, o DN passava a ser "um jornal ao serviço do povo, das classes trabalhadoras e, especialmente, das mais desfavorcidas". Apostava na "construção e defesa da sociedade socialista". E jurava apoiar "as justas lutas dos povos ainda oprimidos, numa linha antifascista e anti-imperialista inquebrantável".

O primeiro "apontamento" do futuro Nobel da Literatura, com data de 14 de Abril, antecedeu em 11 dias a vitória do PS na eleição da Assembleia Constituinte. Mas já então ele avisava "Não perderemos por via eleitoral as conquistas da Revolução." Estava dado o mote para o conjunto das intervenções de Saramago no DN.

peças militantes. Eram peças militantes, na acepção mais lata do termo. O próprio director adjunto não o escondia. "Não somos independentes nem neutros nem objectivos, isto é, não publicamos em Andorra", escreveu a 5 de Maio, em resposta aos que acusavam o DN de ser um "jornal oficioso", em sintonia com o Executivo de Vasco Gonçalves e os desígnios do PCP.

O "companheiro Vasco", como lhe chamava a esquerda pró-comunista, foi brindado com muitos louvores de Saramago. Um dos maiores ditirambos ao primeiro-ministro - uma "figura histórica" - veio na edição de 21 de Agosto "Bem o ouvimos daqui, bem o vemos, bem lhe queremos." E dois dias depois: "De todo o pessoal político-militar da primeira linha, Vasco Gonçalves foi o único capaz de compreender o que em Portugal se passou a seguir ao 25 de Abril: a súbita aceleração da luta de classes e sua extrema agudização, e também a evidência da inviabilidade da solução social-democrata." Estava já o Executivo de Vasco à beira do fim...

contra Soares. Um dos seus alvos de estimação, pelo contrário, era o PS de Mário Soares, que "faz da calúnia a sua grande especialização" (1 de Setembro). Sobre o CDS, Saramago escreveu "O partido do sr. Freitas do Amaral é o rosto da extrema-direita legal" (13 de Junho). Sá Carneiro era o "tipo acabado de anticomunista delirante" e o PPD um "veículo da reacção". Nem o MRPP escapava: o director adjunto denunciou "as provocações, violências e torturas desses aprendizes de feiticeiro que se dizem movimento reorganizativo do partido do proletariado" (18 de Maio).

Ao tomar posse o VI Governo Provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo e com vários ministros do PS e do PPD, o DN vira baterias contra o novo Executivo, a que chama "grupo desconexo de governantes". Com uma energia simétrica aos elogios antes dispensados a Vasco. "O Governo é já um anacronismo desta Revolução", escreveu a 14 de Novembro. Almeida Santos, com a pasta da Comunicação Social, foi particularmente visado. Por ser um "ministro repressivo" (20 de Outubro).

O líder comunista, Álvaro Cunhal, nunca foi mencionado nestes "apontamentos". Mas o PCP chegou a ser alvo de uma crítica por recusar entender-se com forças de extrema-esquerda (ver caixa ao lado).

Por essa altura, ia o DN publicando títulos como estes "O Sul paralisará se não se concretizar imediatamente o apoio à Reforma Agrária" (13 de Outubro); "Grande manifestação pelo avanço imediato das organizações populares" (23 de Outubro); "Oficiais revolucionários defendem poder popular armado" (22 de Novembro).

A linguagem de Saramago tornava-se ainda mais sombria. "Ou esta Revolução se suicida (...) ou se recupera pela única via que lhe deixam aqueles que a querem liquidar", assinalava a 1 de Agosto. Na sua opinião, "a violência revolucionária é uma legítima defesa quando está em causa a vida e o futuro de um povo inteiro".

Tudo culminou no editorial de 24 de Novembro. "O regresso aos quartéis, que alguns teimam em preconizar, nada resolveria as Forças Armadas, tendo sido MFA no seu sector progressista, não podem recuperar neutralidades utópicas: mais vale, portanto, que, mesmo em conflito, continuem no primeiro plano da acção política. Mas cuidado, o tempo não espera", referia o "apontamento" desse dia. Parecia um apelo implícito ao golpe militar. O problema é que este golpe mergulharia o País na guerra civil.

De facto, no dia seguinte, a esquerda fardada saiu dos quartéis - mas perdeu a parada. No DN, caía o pano para José Saramago.

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